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sábado, 23 de abril de 2011

'Hoje eu tive um sonho ruim, por isso te liguei.'

Sabe que esses dias tive um sonho muito estranho contigo?
Abri os olhos e vi um céu azul cheio de nuvens grandonas e arredondadas, branquíssimas, como se desse pra pular nelas. Senti uma mão no meu cabelo e me assustei, congelei os sentidos de medo. Um sorriso de ponta cabeça se desprendeu na minha frente, seus grandes olhos apareceram piscando pra mim, numa serenidade tão grande que logo me deixou tranqüila. E o azul do céu rodeando seu rosto que sorria por inteiro, me dando a maior alegria do mundo. Eu estava deitada no seu colo, seu cheirinho pairava acima do meu rosto, você brincava no meu cabelo, ria e beijava minha testa, de ponta cabeça. Você me pediu pra levantar, então levantei e me preparei para a próxima surpresa, na maior vibe de calmaria, só nós dois num lugar lindo: grama verdinha, árvores, campo e algumas poucas flores. Surge no meio do sonho um carro, e aí tudo fica confuso: você entra rapidamente no carro, seu sorriso vira arrogante e malicioso, pisa no acelerador e vem na minha direção. Sinto meu corpo inteiro formigar, e apago ouvindo o barulho do motor do carro correndo pra longe.
Acordo meio tonta vendo um teto branco, olho para os lados e vejo várias pessoas deitadas em macas, concluindo que era um hospital. Você estava sentado numa poltrona de visitante, vê que eu acordei e chama rapidamente médicos para dar as boas novas. Eu me confundo mais ainda com sua reação enérgica e feliz, então não entendo mais nada. Suas roupas e seu cabelo pareciam diferentes, era outro dia longe do acidente, eu devia ter dormido por muito tempo. Tudo parecia bem, então sinto um quente escorrendo no peito. Levanto o lençol e vejo sangue manchando a roupa, sinto o coração bombeando e parecendo explodir no peito, me apavoro e grito seu nome, "socorro!". Você continua calmo, mas agora com uma expressão de piedade no rosto, passa a mão no meu cabelo e diz que está tudo bem, baixinho e várias vezes. Com uma crueldade anormal diante do meu pavor, eu continuo gritando e vejo médicos e enfermeiras com o mesmo olhar solidário dizendo que "só eu poderia fazer parar".
Então, de repente o cenário muda para uma sala toda vermelha, com um relógio vermelho na parede e um sofá no mesmo tom. Vejo um bilhete com a sua letra (jamais esqueceria dela: grande, redonda, mas simpática, com o seu jeito) aonde está escrito: "Volto logo, amor, não se preocupe." Passo os dedos no bilhete e sorrio, dou umas voltas no lugar e não vejo nenhuma janela ou porta na sala carmim. Por onde você entrou? Como deixou o bilhete? Por que eu estava ali, afinal? Por que não me ajudou quando eu estava sangrando? Por que diabos me atropelou? Mistério. O vermelho da sala me dava nervosismo e raiva, sentei na poltrona de frente para o relógio e descobri que estava parado. Que horas eram? Há quanto tempo eu estava ali?
Não sei, mas tenho o péssimo hábito de relacionar sonhos à vida real, principalmente quando acordo suando e respirando forte.
Você sempre me atropela. Não, não precisa nem sair do lugar: basta um gesto seu, uma frase suspeita para meu coração acelerar, o planeta todo tremer, eu me sentir sufocada, o corpo perder os sentidos, e babau, já era. Você - e só você - tem o poder de me atropelar como um trem me esmagando entre os trilhos, me deixando tonta e burra (coisa que ninguém mais é capaz). Num instante é terno e carinhoso; no outro, frio. Não entendo por que me atropela e vem me cuidar no instante seguinte. Me detona, e logo depois se torna o cara mais protetor do mundo. Me vê ali, acabada, cansada e com o peito explodindo, sem fazer nada. Torno a repetir: amor é via de mão dupla, amor de um lado só não flui. Amor atropelado, escrachado e ferrado - infelizmente - é o único que me deram até hoje. E por isso eu cuido bem dele, mesmo sentindo-o vazar do peito de tão grande que é. E a sala, aah, a sala! A promessa de volta, certo? E te espero sentada, te espero fingindo que estou lendo um livro, te espero enquanto tomo banho e me arrumo, te espero olhando para a janela, sentada na sacada ou vendo uma novela que nem acompanho só para fingir que não te esperava, quando você chegasse. O relógio nunca anda, não corre, só continua parado. A hora não passa e te espero todos os segundos dos minutos das horas de todos os dias. Atropelada pelo amor ou não, ferida ou não, sentindo o amor sufocar ou não, sangrando ou não, trancada numa sala ou descabelada, fingindo mil coisas, pensando em sonho doido ou ficando maluca: mas te espero. De corpo, alma, braços e peito abertos, no meio da rua da sua casa.
Mesmo que doa, mesmo que você passe por cima de mim, mesmo se não puder acordar no seu colo com seu sorriso de ponta cabeça no meio do azul, mesmo sem te dizer tudo isso: te quero. Hoje, sempre, amém.

Nostalgia... a saudade silenciada começou a gritar.

Lá está você, com toda a sua onipresença me seguindo enquanto eu vou ao mercado, atravesso a rua, corto o cabelo, paro para ler em uma praça, atravesso a rua distraída, assisto tevê num imenso sofá vazio. Pelo menos, gosto de pensar que você está comigo...
Me dei ao luxo de ter um dia de nostalgia.
Vi na floricultura um rapaz com um buquê imenso de rosas vermelhas, e me lembrei imediatamente do quão romântico você foi ao me entregar rosas, me fazendo cessar um discurso birrento. Folheei o livro que guarda a primeira lembrança física que tenho de você, tirei fotos e 'cartas nunca entregues' de dentro da caixa para olhar. Lembrei do dia em que você me chamou de 'Dengosinha', das manhãs que eu estava em 'sono profundo' e acordava só pra te ligar e dizer: "Bom dia, bê." E da vez que gritei com você pelo telefone e logo depois liguei pedindo desculpas. Chorei um pouco lembrando do último beijo e da última vez que estive com você, das brigas bobas e da última palavra. Chorei lembrando que fiquei com o telefone no ouvido escutando o "tu tu tu" depois de você ter desligado. Passei na frente da sua casa, fiquei parada um pouco vendo as luzes dos cômodos se acenderem e se apagarem, fui embora. Lembrei de quando você me visitou no hospital e cuidou de mim, com mimos e me cobrindo toda pra não sentir frio, lembrei também de você apertando minha cabeça pra ver se tinha ficado alguma sequela do acidente. Comprei o sabor de sorvete que você gosta e comi sozinha assistindo um filme deprê. Li umas revistas que você achava a maior bobagem do mundo, escutei a "nossa música" no repeat do rádio. E sabe de uma coisa? Nada que eu faça vai diminuir a dor da perda, então quero mais é sentir cada milímetro de você dentro de mim. Dói sim, é difícil sim. Mas te lembro e te curto em cada detalhe do que ficou: desde um adesivo que você colou em mim no dia do nosso primeiro beijo, e das flores todas guardadas, já murchas, mas com um significado indescritível. Sinto você perto de mim todos os dias, e sei que foi bom o que passou. Mesmo longe, pensa em mim também, tá?