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domingo, 3 de junho de 2012

" mas a longo prazo sou uma garota que não funciona direito. É como se eu fosse uma vitrola antiga, com a agulha defeituosa. Se você parar para prestar mais atenção em mim, vai se dar conta que eu fico roçando no vinil e atrapalhando a música, provocando aqueles ruídos que dão agonia nos dentes. E sabe o que é pior? Eu não tenho conserto, não há peças de reposição no mercado, sou uma causa perdida. Por que você não abraça uma árvore? Vai dar na mesma.”

sexta-feira, 30 de março de 2012

Calma. Espera. Deixa eu organizar o que quero dizer. Assim. Aquele domingo, lembra? Fui na tua casa e resolvi ouvir as musicas que estavam no computador. Talvez através da sua seleção eu soubesse melhor quem você é. Sei que eu comentei algo idiota sobre uma suposta vontade de me enforcar após ouvir sua listagem e você, meio brabo, grosso e arredio, disse “se você está com vontade de comer uma torta de morangos deve procurar uma confeitaria, e não um açougue” e blá-blá-blá. Tudo bem, não está mais lá quem falou.

Só que eu estou aqui. Querendo saber mais coisas remotamente pessoais sobre você sem que uma expressão de pavor cruze seu rosto. Então, com quantos anos você perdeu a virgindade? Já foi a algum show do Whitesnake? Você teve sarampo quando criança? Você foi criança um dia, não foi? Porque seus pais se separaram? Você me quer apenas como sua garota de final de semana? Eu quero mais.

Aquele seu jeito seco e ao mesmo tempo delicado de esfregar a suas razões na minha cara. Odeio quando você está certo, coisa que acontece quase o tempo todo. Além do mais, não é justo. Você já me viu meio embriagada, sentada no meio-fio, chorando de saudades da minha mãe. Você já me viu chorando embaixo de você, no meio de uma trepada afetuosa, impressionável e emocionante, e eu tive de fingir que apenas tivera um dia ruim.

Enfim, em três meses você me viu chorando 43% do volume esperado para o ano inteiro. Mas é que, sei lá. Isso tudo, todo esse medo do nada-acontecer ou do tudo-acontecer-rápido-demais tem me deixado cansada. Nada de mais. Você sabe montes de coisas sobre mim, muito porque sou tagarela, coleciono tiques nervosos e acho que está sempre faltando um algo mais – por que se contentar com o ótimo, se pode ficar perfeito? Vocês meninos têm disso? Tipo, quando jogam videogame, desmontam motores ou fazem fogo, vocês trocam ideias, buscam saber o que o amiguinho acha a respeito disso e daquilo? Tudo bem, eu sei que não. Pode ficar aí, na tua, quieto, não se faz necessário reunir forças para mover lábios e cordas vocais para responder qualquer coisa que seja. Não quero incomodar, mas, vai, solta pelo menos um muxoxo ou me manda calar essa maldita boca.

Passear pela calçada contigo tem a mesma sensação de ir a um bom restaurante concorrido. Na sua testa está escrito RESERVADO, e eu espero de verdade que o lugar seja meu. Sabe, eu tenho adorado sentar à sua mesa e experimentar sua comida bonita, colorida, aromática, sedutora e cheia de sabor. Nunca me importei muito com a receita, os ingredientes e a forma de preparo. De todos os locais onde jantei, todas as vezes evitei descobrir ratos e baratas e outras guarnições escrotas nos bastidores daqueles idiotas. Eu não queria me decepcionar. Mas contigo é diferente. Eu preciso saber. Como vou saber se estou pisando em ovos se você não me convida para conhecer sua cozinha?

Me diz alguma coisa, vai. Me fala tudo aquilo que eu ando louca pra ouvir da sua boca. Sussurra, então. Ou me ensina a receptar telepatia, essa língua que só os inteligentes e evoluídos e incógnitos e brancas-nuvens conseguem decifrar. Porque eu já estourei minha cota de intuição. Diz que me adora, que gosta de mim, que sente saudades minhas e uma vontade insana de me ver em plena quarta-feira. Sei que não muda nada, mas eu preciso ouvir. Ou isso, ou eu pego minha bicicleta e dou o fora daqui. Agora. Sabe, não está dando muito certo, às vezes eu me sinto meio o Dick Vigarista gritando para o Mutley fazer alguma coisa. E você só olha meu desespero patético e fica rindo. E então? Como vai ser?

Desisto. Eu acho, às vezes, que seria mais produtivo perseguir pombos em praça pública. Bem, eu só queria dizer que, apesar desse seu jeito todo iceberg de ser, eu te acho um rapaz incrível. Você é o melhor ser humano entre os piores que já conheci. Ou o pior entre os melhores. Não sei. Sei que eu inexplicavelmente estou na tua e você sabe disso. Não dá bola, assim que meu ataque trevoso de angústia cessar, eu sei, não vou me importar nem um pouco se você ficar na tua, se você não ligar de me aturar falando pelos cotovelos, deitada do teu lado.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Jogo minha bagagem na cama e vou por cima, com as pernas para o ar. ele cai junto. a gente ri. ele tem um jeito de me tocar, de caminhar com as mãos no espaço entre minha pele e a roupa, sem parar de me analisar o corpo, cheio de fome e ternura e calor. eu sei que foi por isso que voltei, que volto, toda vez. é quando eu fico por baixo que a verdade se esfrega nos meus olhos e se infiltra pelos meus poros. com o mapa do meu corpo, ele me prende nos meus becos e dança nas minhas avenidas. eu não tenho saídas.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ele sabe, pois quis saber!

"Ela se aproximou de mim procurando um amor e aqui estou: seu amor. Do jeito que sei ser, meio torto, às vezes sem muitas manifestações de romance e completude, cheio de silêncios, angústias e mau-humores. Fazendo meu papel, e não sendo apenas mais um percorrendo aquele velho ciclo conhecer-tentar-decepcionar-conhecer-tentar-decepcionar. (...) Mas ela sabe, eu também, que sei amá-la, cuidá-la, fazê-la rir, viajar leve".

terça-feira, 7 de junho de 2011

Coisa de momento.

Confesso que a música romântica me fez tirar a roupa mais facilmente, mesmo eu não sendo de pensar muito antes de fazer isso. As coisas que ficam fora do lugar dentro de mim, sou eu mesma quem bagunço. Você, eu deixo bagunçar somente os cabelos e minhas quinquilharias femininas no bidê, pra deixar registrada uma marca, uma música, um beijo e umas recomendações.

Era o trato. Não sou de meio-amores que machucam por inteiro, acho essa coisa de paixão uma monstruosidade. Esse afeto sem razão que cultivamos por alguém quase desconhecido é uma espécie de suicídio passional que dá anos de cadeia. Não gostaria de ser como aquela gente que arrasta corrente por tempo. E não sou morta por dentro, acontece que meu colorido só dura 24 horas, tal uma borboleta. Sou isso, uma espécie de heroína lepidóptera nascida pra inibir crimes passionais. Mas só à noite, o resto do tempo sou uma lagarta gosmenta.

As pessoas que se apaixonam tendem a olhar-se mais no espelho, sem enxergar sua patética e debilitante condição. Quando a coisa acontece mútua, vá lá, diversão garantida por um tempo biologicamente determinado. As rejeitadas são o brabo. Subvertem-se psicóticas, caninas, manipuladoras, chantagistas, insanas, mendigas, agonizantes, verdadeiros cães de rua que aceitam um dono qualquer, suspeitos de crimes cheios de rastros.

Se alguém já chegou lá, por gentileza, me diga se vale à pena tanto andar. Do contrário, continuarei julgando essa coisa de amor uma longa estrada de chão calorenta até uma paradisíaca praia, que leva tanto tanto tanto tempo até você alcançá-la. E quando você chega sedento por um mergulho, fez-se a noite, o mar fica revolto e gelado e suscetível e perigoso e descontrolado. Não me espanta a vida como é ela é, me incomoda a vida como ela deixa de ser, às vezes. Simples, prática, funcional, indolor. Mas são apenas convicções.

Agora essa melancolia, essa saudade, essa tristeza, essa nostalgia, não sei o nome, seja lá o que você quiser. O jeito engraçado de andar com aquelas roupas, mesmo eu não concordando com aquela sua camiseta branca, seus dedos encardidos de cigarro, sua risada às vezes meio cruéis, as coisas que você diz por empolgação, completamente nu. Mesmo eu não concordando com nada de bom das coisas que já consigo enxergar em você. Você não sabe, mas meu superpoder é inventar homens na minha cabeça.

Acha mesmo que vou sair na rua só pra comprar o jornal do dia e consultar sua intenção de me ligar no horóscopo? O interessado não dá desculpas, dá um jeito. Quando essa hora chegar, o dia já se foi, meu signo já aconselhou a agulha do meu disco trocar de música: dorme e acorda amanhã, num novo dia. Faz de conta que é otimista ou que esse amor não significava nada. Se a maioria acha triste a sensação de estar esquecendo uma feição, pra mim é um alívio discordar.

Como não sei se verei seu rosto de novo, aquele papelzinho seu rabiscado no meu bidê, recomendando uma música pra ouvir, joguei no lixo antes de memorizar. Não me dou o direito de mergulhar assim tão fundo num admirável mundo que não me pertence. Mas se acaso você me procurar, não sei, pode ser, quem sabe passa hoje aqui pra devolver as coisas que são minhas - meus momentos bons.

Se as pessoas hoje em dia tem mais vergonha de se olhar do que se chupar, então a sensualidade está toda nos olhos.



Doze coisas que adoro fazer com você:

Se as pessoas hoje em dia tem mais vergonha de se olhar do que se chupar, então a sensualidade está toda nos olhos.

Hoje é dia dos namorados e você não está lendo este texto. Porque você está andando de mãos dadas num parque lotado de gente e seus cães, ou procurando um presente escondido dentro do carro, ou provando uma culinária exótica, ou virou pudim contra a grade de um prédio qualquer da cidade. E taí, de saída, quatro das coisas que adoro fazer com você.

Eu também não escrevo agora, na real digito no meu celular uma mensagem daquelas sem sentido pro resto do mundo, fora nós dois, pois juntinhos, eu mordendo seu queixo, você encaracolando mais meus cabelos da nuca, o mundo parece mesmo só tudo que a gente não precisa, apenas descarte. Bem, o sms criativo é a quinta coisa, a sexta é aquilo de morder o queixo.

Olha, o que vem depois da sexta coisa, se encaixa a sétima e a oitava das coisas. Mesmo a gente sempre fazendo a sétima e a oitava na mesma hora, na mesma posição, dando tudo na mesma coisa. Mas resolvi separar pra não ficar nenhuma dúvida: a gente faz amor. Que às vezes parece sexo. Que de vez em quando parece loucura. Que algumas vezes soa ilegal. E também uma música da Rita Lee, um torneio de judô, osmose, dois gêmeos xifópagos, ou a pororoca do meu rio invadindo teu mar, um inferninho pra dois. Ou atentado ao pudor, à moral, aos bons costumes, à vizinha que apanha do marido e todas as pessoas que se masturbam em webcams. Entende? É tanta coisa misturada que não cabe num item, aliás nem dois. Preciso de três.
Sexo, amor, e a terceira coisa, que apelidaremos de sacanagem meiga.

A sacanagem meiga, além de ter olho no olho e ser a coisa mais sensual desde as lambadas do Beto Barbosa, me remete a décima coisa. Ficar deitado de frente se olhando como fosse você uma taça de vinho no jantar e eu um tablete de diamente negro. Você
confere minha ingenuidade por trás das pupilas taradas enquanto decifro aquele misto de medo de sofrer com um corcovado de amor pra dar. Sabe, se as pessoas hoje em dia tem mais vergonha de se olhar do que se chupar, então a sensualidade está toda nos olhos.

E por falar em medo, a coisa número onze, são aquelas sandices que adoro dizer pra te assustar. Esses dias eu disse que não entrava na vida de ninguém se não fosse pra mudar tudo. E você me olhou com as sobrancelhas assustadas de quem se borra toda por isso. Nem esquenta, essas palavras que você só viu em filmes com o Jude Law ou em textos meus, não passam de um jeito de eu mesmo me acostumar a ter a vida modificada e não pirar com isso.

A última coisa seria dormir de conchinha contigo, mas mudei de idéia. Vou precisar enjambrar ali na nona coisa, cujo dono agora é: sacanagem meiga e depois dormir abraçadinho com o barulho de todos os fenômenos naturais batendo na janela. Porque seria uma afronta, um desbarate, uma inverdade deixar de fora a décima segunda coisa, que é fazer dos seus sorrisos tímidos e espreguiçados de manhã uns textos bacanas. São eles que te trazem pra mim o tempo todo.

Por que eu só faço com você.

Às vezes, você tem o mesmo sonho (bem, no seu caso pesadelo, dos grandes) que eu: me ver conhecendo outra garota, transar com ela e voltar pra casa balançando chaves depois de uma espécie de feriado de nós. Uma fantasia erótica, de repente ligada à uma pulsão de morte freudiana, uma besteira que protagonizamos vez que outra, para estupidamente nos sentirmos menos mortos e sonolentos. Como se variar o cheiro do lençol fosse um direito depois de algum tempo de serviço, um benefício pós-tolerância. Eu penso nessas coisas. E sei que você também.

Às vezes, agimos como se corpo e o espírito fossem dois irmãos gêmeos idênticos, o espelho um do outro, sem notar o quanto é patético vesti-los com roupas iguais e alimentá-los supondo o mesmo paladar. Como se um dos dois, talvez o que nasceu poucos minutos mais tarde, não tivesse vindo com uma misteriosa intolerância à lactose ou algo assim. Fazer amor com uma garota cuja calcinha eu nunca vi e, aliás, nem imaginava que o mundo fashion já andava aceitando aquilo como calcinha pode ser bem bacana, não é? Mas eu penso, quanto de alegria e paz de espírito meu corpo suporta? Muito, tudo. E quanto de sexo até meu corpo enjoar outra vez? Fogo, chama.

Isso sem contabilizar a paciência de fazer tudo aquilo rolar. O lance de ficar enxugando as axilas todos aqueles minutos antes de ligar e marcar alguma coisa. O vácuo durante as conversas, porque você viu "Melinda e Melinda" e ela não, porém ela viu "Embrigado de Amor" e você não. A decepção porque ela diz odiar Jerry Seinfield ao mesmo tempo em toca seu braço, ou seja, agora ela já tocou seu braço, você está prestes a foder alguém que odeia as melhores piadas do universo. Fora os primeiros beijos, tortos ou pro mesmo lado, dando sinais de que não apenas moralmente a coisa não deveria estar acontecendo, mas também por uma questão química.

Depois de um tempo você descobre que as escolhas mais acertadas têm as renúncias mais confortáveis - e eu escolhi você, sabe? Honestamente, entre fazer sexo sem amor ou sexo com amor, eu prefiro que meus triglicerídeos estejam em dia. Em certa idade, talvez quando sua testosterona começa a se estabilizar ao nível do mar, não visitar camas das solteiras da cidade não é tão dramático. É só como não ter grana pra ir no show do Paul McCartney, nada que vá mudar sua vida ou desvalorizar todas as coisas que você anda fazendo. Eu me preocupo com essas coisas, eu penso nessas coisas, eu realmente acho isso, embora a maioria não. E se você também não faz parte da maioria, tenho uma boa notícia: você não está sozinha.

Para os outros parece tão fácil. Já eu, me canso só de pensar em não ter você, ou estar com alguém diferente. Sim, de um jeito estranho e animalesco, como um macaco se comunicando através de gestos selvagens, mas que cansou de pular de galho em galho com medo de não haver tantos galhos assim, só estou aqui tentando dizer que te amo. Não apenas por preguiça ou porque é romântico dizer esse tipo de coisa, mas porque é a mais bruta verdade. Ah, e também que nessas fantasias, tais garotas jamais usam calcinhas de algodão esgarçadas de lavar trezentas vezes. E, sinceramente, não sei se conseguiria viver sem uma dessas no registro do meu chuveiro.

Você não se quebrou!




Vasos chineses se quebram. Copos de cristal, ventiladores de teto, discos da Tina Turner, se estivermos com sorte. Pessoas nunca, a não ser quando esquecem de olhar os dois lados. Mas emocionalmente falando, não. Quem sou eu pra dar pitaco na sua fossa? Ninguém. Você levou um tombo e tanto, e pronto. Se machucou, ok. Dói, eu sei. Perdeu sua capacidade de amar, verdade. Ou não. Não existem verdades, apenas versões, na minha versão.

Sei bem como funciona, quantas vezes já fui dispensado do amor. Muitas. Quis quem não me queria, amei quem enganava, compartilhei unilateralmente, acreditei no sonho hollywoodiano, me quebrei, levantei, desisti, contei mentiras, interpretei. Parece propaganda de telefone celular via rádio estrelada pelo Fábio Assunção, mas é só minha versão daquele trânsito caótico de um amor para outro.

Você não se quebrou, eu não me quebrei. Nascemos com a disposição natural para o amor. Falo por você e eu, não pelos bárbaros da história - Hitler, por exemplo. Sim, não conseguimos imaginar viver sem, sentimos saudade, choramos, compramos discos e livros por impulso, atravessamos sábados com calças de abrigo revisando filmes melancólicos - meus favoritos são "Um Beijo a Mais" ou "A Vida é Bela", produções genuinamente italianas, terra de gente que ama demais.

Bem, como gosto disso de sofrer com pés na bunda, resolvi amar de novo, a contragosto, paladar típico de um desistente. Cafés da manhã românticos, passeios de mão, festas em família, palpites de sogra, distribuição de beijos e mordidas em pezinhos pequenos. Viajamos pelo mundo sem sair de casa. Sabe quando o gostoso da transa se estende ao sono abraçadinhos? Pois é. Além de piegas, um prato cheio pra quem quer, mais uma vez, sair com a impressão de que o amor é o diabo com a garganta cortada ou um cão sarnento e raivoso.

Eu não estava quebrado, foi só uma interpretação, uma versão daquele ato final. Um sonho curto, ruim e mesquinho dentro do meu sonho maior, longo e aberto - apelidado de vida real, existência, a lucidez com suas esquinas e possibilidades. Eu não me quebrei, só atribui importância demais à oscilação momentânea da minha autoestima, valor demais a mim mesmo, pior, ao objeto dessa dependência psicologicamente física. Uma versão demasiado dramática do meu abandono. Fiz da minha vida uma ópera, um livro.

Você continua apto e aberto ao amor. A sede não seca. Se as coisas não aconteceram é porque não aconteceram. Pretensão sua achar que se fechou, que pode decidir, dirigir sua vida. Demita sua analista e olhe pros dois lados. Você só está perpetuando sua primeira experiência sobre o fim, cristalizando a primeira lágrima que caiu, como se tudo aquilo que acabou fosse realmente grande, infinito, definitivo.

O amor te feriu como fere uma flecha sem velocidade e impulsão. Ela cai no chão, você junta e enterra no próprio peito. É pena que quer despertar no outro, no próximo, no amado que se foi? Ninguém tem pena de você. Basta nascer para começar a sofrer, tudo é impermanente, não se iluda. O amor é gasoso, invisível, lendário, metafórico, um sonho. E como todo sonho é insólito, não pode ser cadeado em algum outro lugar que não o coração.

Seu coração não quebrou, pelo contrário, é única coisa que ficou intacta. Ele está lá, esperando por outrem. Como o meu, que pulsa melhor que antes. Um dia vou despertar e voltar a me abraçar com a solidão, estou sabendo. Por hora, não. Amanhã. Hoje, sigo sorrindo, chantageado pela minha versão atual. Toda manhã meu sonho acorda dentro de outro sonho.

sábado, 7 de maio de 2011

Não, não fica bem aparecer por lá agora, ainda. Faz só uma semana. Ele vai estar naquela fase em que o canto dos pássaros na janela não lembra música, só ruídos verde-escuros. Ele está bem, evidente que está. Tem trinta e dois dentes, barba, um amigo que outro, discos do Nirvana, quem não estaria? Não, não, chorando já é pedir demais. Outra? Duvido muito. Os primeiros dias, vinte ou dez, a gente se dá conta de que não tem mais ninguém pra se arrumar, perfumar, ficar pronto. Ele deve estar com aquela calça cinza de algodão, caminhando de meias pela casa, apoiando a testa no vidro da janela, de vez em quando. Tomando coragem de olhar pra rua e o que vem por aí, depois de você.

Não, não telefona. Me espera chegar. Do mesmo, de nada vai adiantar. Ele está justamente esperando por isso, testando as possibilidades, do fixo pro móvel, e vice-versa, pra checar mesmo se ambos estão cumprindo seu papel. E tá tudo em cima, funcionando, não vá estragar todo o processo de cura, os primeiros dias são elementares. Telefonar de bobeira pra ficar em silêncio do outro lado do mundo, enquanto ele espera que você diga "estou-arrependida-posso-voltar?". Pra quê? Ele até já ensaiou o timbre pra dizer, como vai desdenhar um pouco de início, depois apresentar seu disfarce em condições infantis, aquele jeito frágil querendo parecer forte só pra mostrar que pode te proteger num anoitecer de segunda-feira.

Você não terminou porque precisava de mais atenção? Então, criatura. Agora é o que ele mais precisa, depois de ouvir "não-dá-mais-vamos-terminar-isso-antes-que-alguém-se-machuque-mais". A não ser que você queira parecer louca, aí guardo suas costas, vá em frente. Se ele for realmente o Grande Amor da Sua Vida? Não é, vai por mim, a gente sempre sabe. Não pense maluquices. Ainda é cedo. O tempo pra surgir um novo amor leva uma eternidade, não se engane. Agora serão apenas uns casinhos sem importância, ele vai cultivar dois ou três, todos com a cor de cabelos, a voz e o cheiro bem diferentes dos seus. E mesmo que alguém apareça, o alarme dele não vai soar.

Não, você não é insubstituível. Mas também, o que você queria? Uma espécie de hipoteca amorosa? Um estepe sentimental? Não é assim. Ele é bacana, vai encontrar outrem um dia, vai conquistá-la com o mesmo mel que grudou você, ninguém perde a manha. Um pouco de ciúme é natural, poxa vida, você é gente, isso é parte integrante. E, fatalmente, vão se cruzar por aí. São tantas as esquinas. Vocês vão beber um café quente juntos, falar amenidades, sobre novos cortes de cabelo, você está bonita, e você mais maduro, como está sua mãe e tudo mais. Nos momentos de silêncio, baixarão o queixo, com medo de amarrar olhares e, talvez, voltar tudo aquilo outra vez. Mas vai ser só isso. Se existem outros caras legais por aí? Claro que sim. Vai por mim.

sábado, 23 de abril de 2011

Não quero perder nada.

Quando vem isso, essa angústia, essa falta de eletricidade entre nós, te mando embora. Mas fico impressionada de como você muda na hora de ir. Fica mais bonito, mais comovente, mais engraçado, mais tentador, mais charmoso, mais irresistível.

Mas, e daí? Fica. Foi uma crise dessas internas, quando o sentido de tudo sofre um mal súbito. Você sabe, eu procuro o amor romântico. O que vou fazer? Não sei me enganar. Acho que é instinto, algo muito maior que eu.

Bastam uns dias sem te ver pra eu já não saber o que fazer com os próximos. Por um fio não pego um banquinho alto e tento me decapitar com a hélice do ventilador de teto. Talvez uma morte ridícula possa animar minha noite. Mas eu não quero morrer, é uma depressão, um cansaço que chega quando o sentido se esconde.

São apenas mudanças. Nossas necessidades trocam o tempo todo, hoje carinho, amanhã sexo, depois dinheiro, romance, diversão, solidão, quietude ou merda qualquer. Quando vê a gente se perde. É só tudo perder o sentido e a gente se separa. É só a gente se separar pro sentido voltar. O brabo é toda hora ficar procurando uma nova canção que sirva pra nós.

Isso me incomoda. Ontem, eu premeditei seriamente em te dizer "olha, senta aqui, não tá dando mais, acho que vou seguir um caminho diferente e mais fácil, não fala nada não, eu já me decidi". Eu realmente me sinto culpada por pensar assim, às vezes, toda semana. Não sei se você concorda comigo,
mas estar junto não é tão ruim assim. Então, fica sempre pra depois.

Não vou dizer que é tudo mágico. Mas eu também não quero perder nada. Você vai argumentar com alguém com todos aqueles trejeitos engraçados e quero estar lá pra rir. Vai roçar com a ponta de todos os dedos a barba mal feita no gogó e eu quero estar lá pra implicar. Eu quero protestar quando seus pratos não seguem a receita que achei na internet. Tem sempre um filme na tevê que ainda não passou.

Não sei se é apego ou porque minha vontade de saber o que você vai me aprontar amanhã nunca cessa. Tem sempre algo que a gente sonhou fazer juntos e não quer deixar inacabado. Ninguém tira meia fotografia, ninguém viaja até a metade do caminho, não fica bem sair no meio de uma peça de teatro, ninguém telefona por meia pizza. Um trabalho não finalizado não é um trabalho.

Vai ter sempre algo. Uma roupa pra buscar, uma festa de aniversário de algum amigo em comum, um truque novo na cama, um episódio de estréia daqueles seriados que você me ensinou gostar, a doença da sua mãe. Essas pequenas coisas. De algo em algo, a gente vai levando.

As coisas que acabei de dizer, leve em consideração só até a meia-noite. Eu sempre tento virar a página sem grifar as partes importantes com alguma caneta de cor alarmante. Mesmo num amor de linhas tortas como o nosso, o fim parece um erro, como um ponto final no meio da frase.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Mulheres foram feitas para serem tocadas, não compreendidas, decifradas, poetizadas.


- Este texto poderia se chamar "Como entender uma mulher?". Mas ao final da leitura você terá descoberto que não é preciso uma resposta para esta pergunta. "O amor não é prosa e nem poesia. Aquelas três palavras não me servem. São sonetos sem pele, versos que não ressoam, metáforas que não suam, frases que não cheiram. "Eu te amo" não diz nada, entende? Não escreva o que sentiria se acordasse comigo. Acorde comigo. Não imagine meu cheiro. Me cheire. Não fantasie meus gemidos. Me faça gemer. O amor só existe enquanto amar. Ação. Calor. Verbo. Presença. Milímetros. Hálito. A antologia poética do Cummings nunca engravidou ninguém. Não é o refrão de "Sexual Healing" ou qualquer solo de guitarra que arrepia cada orifício das minhas costas ou empina os pelos da panturrilha ou me umedece o centrípeto das pernas. Não me elogie a quilômetros ou horas de mim, não digite meu nome, não me telefone no meio da noite, não me convide por webcam, não quero um e-mail seu. As frases, as confusões, as lágrimas são minhas. Você tem o corpo. Eu transito pelo mundo. Pego carona em carros, desvio de pessoas, contemplo edifícios, sento em cafés, folheio revistas, acho rapazes bonitos, navego por horas na internet, leio mensagens em PowerPoint, troco fofocas. Meu físico ocupa percursos, espaços, tempos e ainda assim meus fragmentos voam pelo chão. Eu não sou uma flor, um tesouro, a aurora boreal. Sou só uma mulher, me trate como tal. Fui feita pra ser tocada, não compreendida, decifrada, poetizada. Não sou tempestade. Sou abraço. Não sou química. Sou física. Não sou vento. Sou movimento. Não sou música. Sou reboladas. Meu corpo não é o paraíso, é um lugar. Faça de mim o seu lugar. More em mim ou seja meu vizinho. Caminhe com o áspero da sua língua em todas as minhas texturas, meus calcanhares, minhas coxas, minhas axilas, minhas nádegas, entre os dedos na minha mão, atrás da orelha, no couro cabeludo, no lábio inferior, embaixo dos seios. Eu não preciso de um bilhete, eu preciso de uma massagem na cintura, nos pés, na barriga. Eu não quero flores vermelhas, quero você dizendo baixinho o quanto sou gostosa. Não pense em mim. Me coma. Não me pondere. Me atravesse. Não me console. Me acarinhe. Não me deseje. Me deslize. Não me descreva. Me aproveite. Não me leia. Me dance. Não me pergunte. Me invada. Não me solucione. Me enxugue. Não me controle. Me conduza. Puxe meu quadril, morda meu queixo, bagunce meus cabelos, chupe meus joelhos, esfregue seu peito em minhas costas, lamba a planta do meu pé, toque minha lombar, cheire minha virilha, aperte minhas vértebras, me dê a mão, respire perto de mim, me faça rir, uma omelete, um cafuné no sofá. Não sou uma floresta intocada. Sou uma mulher novamente virgem minutos depois que sua mão me abandona. Deguste meus cheiros, fareje meus gostos, beije minhas cores. Não ache que consegue me abrir, me comover, me prender com apenas três palavras. Não quero ler ou saber que você me ama. Quero sentir isso. Quero tomar banho com você, ser olhada com ternura, que você se confesse entre meu pescoço e meus seios. Peça meu colo, abra minhas pernas, penetre seu carinho, me cante, se importe comigo, ejacule seu querer sobre mim, escute meus medos, enrole minha franja, persiga meu gozar. Não perca a chance, não deixe pro dia seguinte. Não existo amanhã. Eu só existo dentro dos seus olhos, da sua boca, dos seus braços, na ponta dos seus dedos. Esqueça tudo que leu e ouviu sobre mim. O tempo que demora pra me fazer um texto é o suficiente pra derramá-lo sobre mim. Não me descreva, não me entenda, não diga me amar. Me ame apenas. O corpo é a única prova de amor."

segunda-feira, 11 de abril de 2011



" Pra ninguém, você pergunta se ela também pensa em você. Sem resposta, mas claro que sim. Com sombras de dúvida. Ninguém apaga tudo assim. Ela também ouve "Pra você guardei o amor" com o olhar triste no céu escuro da varanda. Claro que ouve. Aí você começa a desconfiar que ela poderia ter sido a mina legal da sua vida. Isso, se você sentisse a mesma paixão, se você conseguisse entregar sua alma tanto quanto, se você soubesse amar ela do mesmo jeito e intensidade que ama a falta que agora ela te faz. "

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Calma, ele vai te encontrar.


Se você veste a camisa das casadas e anda meio aflita com a parca probabilidade de reviver um primeiro beijo, uma transa inicial cheia de suor e tremeliques, um primeiro encontro, toma tenência aí, seja mais solidária. Olhe em volta a carinha de suas amigas solteiras, tadinhas. Elas têm saudade mesmo é de um segundo encontro. Não tá fácil, poxa vida. Agora, também calma aí se você joga nesse segundo time, das garotas que não suportam mais chorar em público ou na frente de ninguém após ouvir o problema não ser você, mas sim a transferência dele para a capital da Armênia, que ninguém sabe, ninguém viu, anunciada só ontem pela multinacional na qual o desalmado trabalha. As coisas não são assim, de uma hora pra outra. Se ele for esperto, vai te encontrar. Você acha um cara lindo, faz amizade, toca em seu braço e seu cabelo tá de ressaca de tanto ser tremulado contra o vento pra dar bandeira. Pois é, ele só te acha bacana, menina inteligentíssima, sangue de primeira. Tem um outro que, além de um frio na planta do pé, provoca em você uma insana e impertinente vontade de esfregar cuecas estampadas de pé no tanque, desde que sejam dele. Mas ele nasceu com o pau torto e apontado pra qualquer mulher que não você. E tem aquele tipão rico, bonito, gentil e tudo a ver contigo, inclusive a paixão pelo Cristiano Ronaldo sem entender patavinas de futebol. E o outro, que prometeu ligar assim que um rolling stone tiver falência múltipla de órgãos. É dose, mas tenha paciência, ele tá procurando. Enquanto isso vai se divertindo com os errados. Eu poderia dizer que o tal cara certo anda fazendo o mesmo, mas não é verdade. Ele tá é atrás de você, mulher de Deus. Você e seus calcanhares gelados às quatro da manhã e não alguém com seus calcanhares gelados às quatro da manhã. Você e sua metralhadora de pequenos beijinhos em tempos de partida e chegada e não uma qualquer uma com igual metralhadora de pequenos beijinhos em tempos de partida e chegada. Sim você e suas coxas roliças, seu perfume ibérico, seu sorriso com os olhos, seus ombros pequenos, sua mania de caminhar de meia pela casa ou se depilar com o barbeador dele, dando sopa no banheiro. Não uma que tenha tudo isso. Você, com tudo isso. Entende a diferença? Por isso tanto desencontro, tanta meia culpa esfarrapada, tanto ti-ti-ti e toda essa especulação amorosa de dar nó em operador da Bovespa. Mas as coisas são assim, criatura. Ele olha, acha que é, experimenta, carimba, não devolve as ligações e segue atrás de alguém que o amarre com inexplicáveis atributos. Dói? Ô, se dói. Mas tente escovar os dentes com um esfregão de aço e me conta. Não acredita? Faz o seguinte: ficaí quietinha, do trabalho pra balada e vice-versa, com todas aquelas colheradas de brigadeiro em cada pit-stop pra recarregar as esperanças. Essa demora faz parte do processo, faz do amor que vier valer à pena e implodir a solidão. Veja por este ângulo: à espera se justifica por você ser tão especialzinha e única, feito uma flor bonita em encostas arenosas. Confia em mim, ele vai te encontrar. Mas siga sua intuição, não perca tempo e beleza com rapazes feitos para outras garotas. Só pelo andar da carruagem você já sabe quem vem dentro.

Ainda lembro, foi num Dia dos Namorados. Eu caminhava na rua com um pacotinho de papel pardo cheio de doces, por entre pessoas andando em par, com as auras azuis em volta das cabeças apaixonadas, em abraços empacotados, um tronco contra o outro, risos contra o vento, todos a favor da data, trocando presentes, procurando nomes aos pares em reservas de restaurantes cheios de sombra. A cidade sempre cinza, era púrpura. Eu também queria. Aí eu imaginei você. Imaginei você com uma voz opaca e doce, a pele dos ombros franzinos com a alça caindo e o cheiro da rua com o perfume da noite. Mentalizei seu olhar eternamente abandonado de saudade de alguma coisa que nem você sabe direito o que é, mas que me faz saber pra quem eu quero voltar todo dia, tipo às seis, sete, enquanto os dias melhores não vêm. Foi assim mesmo, com esse corpo moreno e pequeno, que dá a impressão de que vai se desintegrar todo se, pelas onze e pouco da noite, eu abraço você de conchinha e fico dizendo umas coisinhas pra te convencer que aquilo é amor, porque parece mesmo que a palavra "amor" perdeu o emprego. Idealizei sua boca, que alterna os beijos mais famintos e atrasados de vinte anos sem Dia dos Namorados, com suas dores de garganta, de dente e as aftas da sua língua seca e árida, além de mais trezentas ardências, mágoas, tonturas, atrofias, ciúmes ou qualquer sofrimento da terra que justifique a involuntariedade desse seu jeitinho dengoso, de menina pidona, carente, quase filha única. [...] Tem dias que eu me pergunto se alguém conhece outro alguém que ama alguém. Não, só sei de você - as pessoas me respondem, sabendo que te encontrei. Amo sim, antedigo. Porque eu não esperava te encontrar da mesma forma como te imaginei. E sei que você também não. Vai ver a gente se inventou pra sobreviver nesse tempo errado, onde só nós dois somos os certos.

[ ... ]Eu quis testar sua tolerância, desafiar sua paciência, criar uma nova forma de me amar. Se isso é plausível, minha insegurança feminina se manifesta afoita em ambientes onde está tudo bem. ...Era tudo que eu queria te dizer. Você me deixou só no dia mais escuro da nossa relação, quando eu caminhava cega na escuridão dos meus desertos internos e acabei topando os joelhos em quinas, no fundo querendo achar qualquer coisa onde eu pudesse me apoiar. Joguei sem considerar que em todo jogo metade das chances são de perda. E admito, nessa brincadeira sem graça, eu perdi. Com a ajuda dos fantasmas da minha garganta sempre arranhando, verdade, mas perdi. Onde quer que você esteja rejeitando minhas ligações embutidas com desesperados pedidos de desculpas, só queria que você soubesse: eu amo você demais e foi preciso nada mais que cinco voltas ao redor do meu mundo pra perceber que não existe mais alguém capaz de me tocar com a ponta dos dedos como se de mim saísse música, sempre que meu corpo estremece de algum medo ridículo de que aquele amor quieto não fosse real.

A garota que precisava muito dar.


Faz um mês só. Ok, dois e meio. Certo, talvez três, nem sei. Tá bom vai, um semestre cheio de provas, trabalhos e relatórios e vá à merda antes que eu me esqueça. Juro que não conta? Cazozemeisi. Hein? Catorze meses, pô! Esse é o tempo que parei de tentar, que não transo tô sem coragem de dizer. Tu não tá entendendo, guria: eu preciso urgentemente dar, se eu ficar esperando um namorado, daqui a pouco chega pelos correios uma carta do Vaticano me oferecendo canonização. Fico nessa lenga-lenga feminista de não me entregar a qualquer um e esqueço que meus hormônios não são nada feministas e nunca concordam comigo. Tem um amigo meu que repete que mulher tem mais acessibilidade ao sexo, basta gritar na rua que quer dar e logo se faz uma fila super organizada. Mas o que posso fazer? Com a prosperidade da construção civil nesse país, oportunidade é o que não falta. Mas eu quero uma transa e não ser sacrificada por um time de pedreiros com a camisa do "curíntia". Não espero o pai dos meus filhos, mas também não preciso voltar à Grécia Antiga e ter uma experiência bisonha pra sentir que ainda tenho terminações nervosas. Balada nem pensar. A última vez que levei um playba ajeitadinho lá em casa, o cara me apresentou à sua cueca azul calcinha, tinha as costas que pareciam uma savana africana e quando gozou, berrou "Volkswagen!", coisa que nunca entendi. Sei que às vezes homens imaginam outras mulheres enquanto transam, mas nunca me aconteceu de pegar um que se excitasse com a propaganda do Voyage. Ser surpreendida o caramba, eu quero mesmo é um orgasmo triplo, com bastante homem normal por cima, por favor. Vibrador? Ô, se tentei. Não tem a mesma graça. Posso até pular a parte do romance, jantar e velas, dirty talk. E esses modernos até imitam cor e textura direitinho. Mas o problema de transar com um pedaço de homem é que a única fantasia que me vem à cabeça é estar protagonizando o primeiro filme pornográfico assinado pelo Zé do Caixão. E mais, não consigo enganar meu cérebro. Sempre sei que sou eu socando. Minha analista me deu a dica de fazer com a mão esquerda, mas parece que estou sendo comida por um rapaz de pau grande e todo desajeitado. Me lembrei do Tulião do primeiro ano, babando nos meus peitos pequenos, chorando grato pela oportunidade. Sim, fiz compras. Também pensei que fosse isso. Três blusinhas, um sapato, uma bota da estação passada, quatro barras de Toblerone, um jogo de panelas com tampas de vidro, tacos de golfe, uma casinha de cachorro pra quando eu comprar um, um rolo de plástico-bolha e um disco de um tal de Jeff Beck, pois o cara da rádio disse ser dele o solo de guitarra de me fez perder o semáforo verde porque a perna do acelerador não parava de tremelicar. Ex-namorado seria uma boa pedida, não tivesse eu uma maldição de noivar todo cara depois de ser chutado por mim. Esses dias perguntei à minha mãe se o sotaque de Aracaju era mesmo sexy ou eu que estava pirando sempre que o Adamastor - um homenzinho de um metro e cinquenta e acha que adultos tem onze dentes - me chamava de linda, avisando que tinha correspondência pra mim na portaria. E escritório, então? Salário, benefícios, plano de carreira são importantes, mas lugar bom mesmo de se trabalhar é a empresa que dá ao funcionário pelo menos três alternativas de sexo casual e auxílio décimo terceiro dia pós ciclo menstrual. A revista Amanhã deveria considerar esse quesito. Aí me dizem "amiga, você tem que paquerar mais". Eu lá nasci pra isso? O meu amigo esse, por exemplo. Eu pisco, ele vem e sopra meu olho. Eu menciono a dor insuportável nos ombros, ele me passa o cartão da dona Paulínia, baita massagista. Eu falo com voz de criança que adoro aquela música do Michael Buble e ele me empresta o CD ao invés de ir até minha casa, ouvir comigo. Não sei o que fazer, mas se uma mulher desimpedida e com tesão não puder dar pro melhor amigo, então não sei qual a função de um melhor amigo. Não importa se você vive intensamente e assiste peças de teatro, se acotovela em shows em prol do planeta, se rola feito massa de pão numa bola de pilates ou estoura o limite do cheque especial com milhares de coisas que não precisaria se pudesse ficar em casa dando feito chuchu em cerca de arame. Namorando ou não, por mais movimentada e bem aventurada que seja sua vida, não é um saco não ter com quem contar quando se perde aquela vontade de sair na rua e atender telefonemas só pra ficar em casa fazendo a única coisa capaz de mover o universo?